28 de julho de 2009

Pensei e fiquei triste...

Mais um dia de trabalho que passou, mais um dia que se avizinha do seu final. Um dia igual a tantos outros, apenas diferente pois a lei do calendário assim o determina. Sair do trabalho com a sensação do dever cumprido é já por si relaxante mas sabermos que nos espera um duche fresquinho dá ainda mais para relaxar, quase que parecemos esparguete após começarmos a cozer, ou seja, moles!
Quem passa todos os dias pelas mesmas ruas, vai aos mesmos sítios, cruza com as mesmas caras, é natural que se vá conhecendo as pessoas, não por dentro mas por fora! Ficamos tentados á avaliação por aquilo que as pessoas demonstram mas nunca ficamos a saber quais os tesouros ou venenos que escondem. É no fundo um jogo do quem é quem.
A rua perpendicular á rua da minha empresa é a minha única escapatória para onde quer que seja e aqui pratico tudo o que referi atrás, não com orgulho é claro!
Olho sempre para as mesmas caras e quase todos parecem que ganharam raizes nessas esquinas, á porta daqueles cafés, e qualquer movimento que não seja o estar parado, é realmente muito estranho, acreditem, e desperta-nos logo a atenção.
Nesse dia, nessa tarde, descia a rua e de repente ao fundo, um rápido movimento saiu da esquina. Parecia uma criança pois pelo tamanho era fácil de perceber. A minha dificuldade de visão não me deixou concluir se era rapaz ou rapariga mas como eu ia ao seu encontro, rapidamente identificaria.
Era um rapaz! Ele vinha a correr, a correr muito rápido! As crianças, de vez em quando, lembram-se em correr, portanto na anormalidade do normal da rua, não achei nada de especial. Quando consegui finalmente ver com nitidez o seu rosto, aí sim, passou a ser especial pois o que vi foi uma face aterrorizada!
Está a fugir de um cão, pensei.
Corria com um dos braços por dentro da camisola, talvez estivesse magoado, corria a chorar de desespero, e a minha conclusão de que estava realmente assustado foi quando ele olhou para trás para ver se o algo ou o alguém ainda o perseguia. Só olhou uma vez!
Parei nos semáforos no final da rua enquanto olhava pelo canto do olho o rapaz que quase voava pela a rua acima numa passada de corrida impressionante.
Coitado, deve-se ter mesmo assustado com um cão, lembrei-me então das vezes em que eu próprio tive aquele comportamento... Sempre tive medo de cães e ás vezes eu corria mesmo á frente deles, ou então dava voltas enormes só para não me cruzar com cães...
Sorri ao lembrar-me...
Contudo pelos ouvidos entrou o som que deitou abaixo todas as minhas conclusões!
P'ra casa já! Gritava a voz de um homem! P'ra casa já sua... dispenso reproduzir as palavras que saiam da voz forte daquele homem. O semáforo virou para verde e arranquei devagar para conseguir identificar e visualizar de onde vinha a voz.
A cena que se desenrolava em plena rua era no minímo desprezível! Um homem agarrava a mulher pelos braços, empurrando-a e sempre a gritar as mesmas palavras. Ela chorava, tentava proteger o rosto para não receber uma violência na sua face e não sei se já não tinha recebido. Não falava, apenas chorava e ele insistia com dureza. O puzzle formou-se então quando reconheci o casal, um casal desses da rotina do meu dia, pois costumava vê-los no café, a eles e ao filho... Aquele que corria aterrorizado.
Imaginei a dor da criança, o medo de um homem que é o seu pai, imaginei o trauma pela situação e imaginei que se era assim na rua como seria em casa, imaginei o que é ver um pai a bater na mãe, imaginei...
Pobre mulher, pobre criança, pobre homem...

Esta humilhação pública, levou-me a comparar a humilhação pública que Jesus teve, aquando da sua paixão. Ali, sozinho no meio de uma multidão, que o insultava, que o escarnecia física e moralmente. A multidão para ela era o seu marido...
Pilatos julgou Jesus por aquilo que os outros lhe disseram dele, a ela e ao marido, julgaram todos aqueles que por ali passavam...inclusivé eu!
Após a morte de Jesus, ele ressuscitou ao 3º dia, ela, no dia seguinte, já sorria como se nada se tivesse passado...
Será que ressuscitou? Infelizmente não creio...

Pensei em intervir, tive medo...
Quis ser cristão, não fui...
Senti-me como Pedro que quando Jesus precisava dele, fugiu e negou!
Pensei na minha vida...
Pensei e fiquei triste...

2 comentários:

Cristina disse...

Tenho as mesmas sensações e pensamentos sempre que vejo algo semelhante, choca-me ter percepção desta realidade ali mesmo ao pé de nós... mas reconheço a minha cobardia em ter qualquer tipo de acção para minorar isso...

Anônimo disse...

Se a nossa vida fosse um filme, onde nós tivessemos o comando para parar e avençar as diversas cenas, seria mais fácil reagir a situações como esta, mas... a nossa vida é intensa, rápida, tudo passa a um ritmo alucinante, sem que nós tentemos mudar os cenários, vivemos apenas a nossa vida, recusamos tomar consciência de que os outros, a mulher, o homem e o filho, também são figurantes neste filme que é "nossa" vida.
A nossa inércia dói, dói quando fazemos uma retrospectiva do nosso dia, ou da nossa vida e então aí "Pensamos e ficamos tristes", ou será que "Pensamos e somos tristes...".

PS.: Peço desculpa pela frontalidade, mas eu próprio me revejo em tudo isto e sou triste...

BARBOSA