17 de janeiro de 2008

A estação - Capítulo 1


Sentado na sua cama, Rodrigo não sabia o que escrever. Durante dias esteve a vaguear pelos prados do pensamento, procurando a inspiração que o levasse a ter uma ideia luminosa, procurando somente escrever… Não que fosse já escritor, mas o desejo de criar algo, invadia-lhe o coração de tal forma que, quase se obrigava a ele próprio a imaginar uma história, um conto, um romance, quaisquer linhas que levassem outras pessoas numa viagem alucinante por um mundo irreal. Observava tudo ao seu redor, todos os movimentos, sons que lhe invadiam os ouvidos, os pássaros que passavam defronte à sua janela e nada… Nem uma linha saía da sua mão, que segurava a caneta, na expectativa de mover-se articuladamente para compor aquilo que nós chamamos palavras… Desiludido e rendido, pelo facto de que não tinha capacidade para conseguir escrever uma história, decidiu sair de casa, fugir daquela monotonia da caneta e do papel, e assim aproveitar o belo dia de primavera para levantar o ânimo.

Rodrigo tinha vinte e quatro anos, e vivia há um ano na aldeia da Fraternidade. Aldeia perdida na Serra dos Moleiros onde se contavam 58 habitantes sendo Rodrigo o mais jovem de todos. A sua chegada à aldeia, foi envolta de muito mistério e admiração por parte da população, pois não era normal que um jovem procurasse um local para viver longe de tudo, onde a maioria das pessoas são já idosas, vivem do trabalho agrícola, em soma, vivem distantes da realidade do mundo que os rodeia... Todos o acolheram carinhosamente, mas de uma forma especial a D. Amélia, que é a campeã da aldeia na corrida da vida, onde já leva 95 anos apenas demonstrados na face enrugada e envelhecida, pois no que diz respeito às palavras, ninguém pensaria que tivesse aquela idade: «Ai se eu tivesse menos 70 anos tu não me escapavas!»
A casa que tinha comprado era discreta. Uma de tantas iguais na aldeia, era de pedra antiga com telhado de argila, tinha uma cozinha, uma sala, um quarto e uma casa de banho. À volta, um muro gasto pelo tempo delimitava a propriedade, e nas traseiras, um pequeno quintal onde cultivava alguns legumes sobre a orientação do Sr. José, que era seu vizinho e mentor na arte de aprender a cultivar.
A presença de Rodrigo na aldeia tinha um objectivo: viver. Apenas isso.
Em nenhum dia se arrependia da escolha que fez, nem mesmo o facto de lhe estar bem marcada a tristeza que um jovem carrega após a vivência terrível que é ver morrer os pais…
A Fraternidade era o seu refugio, o seu paraíso, a sua vida.

Sempre que saia de casa multiplicavam-se as saudações a toda uma gente que se agrupava à porta uns dos outros em intermináveis conversas que se desenvolviam numa harmonia jovial.
«Bom dia D. Jacinta! Como está o marido?»
«Sempre na mesma, velho, rabugento, a trabalhar no campo.»
«Então essa saúde Sr. Lobo?»
«É sempre a mesma coisa menino Rodrigo… Os médicos não nos fazem nada! A gente bem se queixa mas no fim, vem sempre igual…»
«Bom dia Sr.Abade!»
«Não te vi na missa hoje! Espero que te venhas confessar!!!»
Rodrigo corou: « Com certeza Sr. Abade. O Senhor sabe que esta juventude não tem emenda.»

Rodrigo ria sempre com todas estas saudações, mesmo que a resposta não variasse tanto, pois a vida era sempre a mesma, apenas mudava o calendário… Depois de quase uma hora para percorrer a aldeia, aventurou-se no trilho rumo à “ estação do pensamento”.

Tinha descoberto aquele lugar quase por acaso. Um dia saiu a correr à procura do Sr. José pois a sua mulher, a D. Josefina, acordou-o ainda o sol não se tinha levantado, aflita por o seu marido não ter regressado a casa, pois nessa noite tinha saido para levar o seu gado a pastar e parecia que se tinha perdido devido ao nevoeiro cerrado.
Aflito, também ele invadiu as matas gritando pelo nome do Sr. José, e foi então, que encontrou este lugar, um pouco acima da aldeia, ainda sem nenhum caminho aberto, como se ninguém o tivesse descoberto. O lugar era como que uma janela na mata verde, onde uma árvore parecia ter sido plantada no sítio exacto, para proporcionar um trono digno de um rei. O sol nascia e por momentos esqueceu o Sr. José, esqueceu o mundo, e sentado contemplou este acontecimento mágico.


A vista era espectacular. Tinha a aldeia aos seus pés, onde só se viam os telhados velhos e cheios de musgo. Os seus olhos percorriam uma imensidão de planícies verdes, acompanhado por uma música de fundo, onde o vento parecia assobiar em sintonia com o cantar de alguns pássaros. Ali era o ponto de partida para as suas “viagens”, por um mundo que não lhe pertencia, um mundo de ideias que ele queria conseguir escrever num papel, mas sempre que lá permanecia, tudo o resto deixava de fazer sentido. Ele esperava o comboio que o levaria a um lugar incerto, a um lugar onde nada importa, a um lugar imaginado por ele e onde ele é o personagem principal.

O que ele queria era deixar-se “viajar”.

Um comentário:

zt disse...

Então quando é que chega o segundo capítulo??? l0ol tá muito bom. Tens jeito.... um abraço